domingo, 1 de abril de 2012

NA ELEIÇÃO DO REITOR DA UFMT EU TENHO LADO

Maurelio Menezes

Tenho postado aqui criticas pontuais à atual administração da UFMT, onde sou professor há 16 anos, e onde faço doutorado. Há três candidatos e eu tenho lado nessa eleição. Apóio o professor Fernando Nogueira, de quem reproduzo aqui um artigo veiculado no Espaço Aberto da Adufmat, um Forum virtual e democratico  de debates de idéias. É um texto que merece ser ponto de reflexão não apenas da comunidade universitaria, mas de toda a sociedade.



Porque sou candidato a Reitor da UFMT outra vez


Fernando Nogueira*



Quando deixei a reitoria da UFMT, por vontade das urnas, decidi me afastar por um tempo das discussões políticas na universidade sem, contudo, deixar de acompanhar de perto o cotidiano da instituição. Dediquei-me às atividades acadêmicas e qualifiquei-me em nível de doutorado, o que assegurou minha inserção em projetos de pesquisa e desenvolvimento, além de contribuir para a melhoria de minhas atividades em sala de aula. Nesse período, também fiz uma imersão, um mergulho profundo nas causas que ensejaram aquele resultado adverso nas urnas. Erros meus na gestão de nossa UFMT? Promessas de campanha que jamais viriam a ser cumpridas ao longo dos anos pelos meus oponentes? Conjuntura política favorável a mudanças no poder do país?

Nessa imersão, fiz uma autocrítica, conversei com colegas, ouvi críticas, analisei-as, amadureci e, sobretudo, pude compreender a motivação das insatisfações com a minha gestão. Mas, além das críticas, ouvi, também, análises pontuais. Uma delas, de que me orgulhou muito, foi que, em meu mandato, em momento algum coloquei em risco a autonomia de nossa Universidade. Aliás, fui um dos reitores que se colocaram publicamente, em âmbito nacional, contra a “proposta de Autonomia”, que nada tinha de autonomia, apresentada pelo Governo Federal, naquela época. Outra análise pontual, de que igualmente me orgulho, diz respeito ao inegável, respeitoso e democrático convívio com os membros da comunidade universitária, dispensando, indistintamente, igual atenção a todas as demandas institucionais. Isso porque, para mim, o processo eleitoral se esgota com a proclamação do resultado das urnas.

Por oportuno, dirijo-me àqueles que insistem em comparar gestões, que ocorreram em momentos distintos, e o faço recorrendo aos colegas da História que dizem sempre, e com razão, que não é possível se comparar dois momentos diferentes na história. Quando exerci a Reitoria, era adversa a realidade do financiamento das Universidades públicas. Evidentemente, se as condições tivessem sido favoráveis, mais ações e avanços teriam sido concretizados. Apesar disso, foi possível manter a UFMT altiva e incrementar sua inserção na capital e nos pólos avançados situados em regiões estratégicas para o desenvolvimento do Estado de Mato Grosso. Nesse contexto, vale salientar que, diferentemente das realizações materiais, é possível sim, ainda que sejam momentos distintos da história, comparar a forma de conduzir a gestão universitária e o convívio com os segmentos que compõem a universidade, seus respectivos sindicatos e a inserção da instituição na sociedade.

Hoje, mais do que antes, colegas reconhecem que em minha tentativa de reeleição não lancei mão da máquina administrativa. Não usei e jamais usaria, porque não faz parte do meu perfil, tirar proveito próprio de cargos, equipamentos e material que não são meus e sim de toda a comunidade universitária e, em última análise, da sociedade que a mantém. Tive e ainda tenho a compreensão de que o que deve pautar a campanha de quem está revestido de mandato é o conjunto de ações realizadas e a postura adotada, como gestor para estabelecer as decisões institucionais na instituição e na sociedade.

É bem verdade, não por acaso, que o calendário estabelecido para a eleição em curso não favorece as candidaturas que se opõem à reeleição pretendida pelos atuais gestores. O tempo é insuficiente para percorrer toda a instituição, acrescido da dificuldade de dispor, com igual facilidade, de dados institucionais e de tempo hábil para contatos pessoais com os membros da comunidade universitária e, também, de condições para cobrir as despesas referentes a deslocamentos para os Campi de Rondonópolis, Médio Araguaia e Sinop. Apesar disso, ao longo da campanha certamente nos encontraremos algumas vezes, inclusive aqui neste Espaço Aberto que democraticamente é de todos nós e não apenas na retórica de um grupo. Nestes poucos encontros vamos debater a Universidade que queremos e, se for do desejo da UFMT, continuaremos as discussões, durante o período que antecederá o início do mandato, na perspectiva de estabelecimento de políticas e ações estratégicas de gestão.

Aqui cabe indagar: A Universidade que queremos é uma Universidade apenas cheia de prédios, que têm recebido severas críticas, quanto à qualidade e infraestrutura implantadas? É evidente que não! Construções são necessárias, contudo é imprescindível assegurar com igual prioridade as demandas da qualidade do ensino, do incentivo à pesquisa e à extensão, seja no que se refere a pessoal, seja no que diz respeito à infraestrutura disponibilizada ou à disponibilidade de tempo para tal. Há mais. Uma universidade capaz de se posicionar, quando necessário for, contra políticas de governo que não contribuam para a contratação de pessoal, condições de trabalho e remuneração decentes. Sobretudo, a Universidade que queremos é uma universidade que vai lutar e primar pela qualidade e não apenas pela quantidade, como tem acontecido nos últimos anos, em que se negligencia a visão humanista para tratar os seres humanos, na instituição universitária, como meros números com vistas a determinadas estatísticas.

No contexto atual, é preciso que sejam lançadas as bases para avançar no que interessa à Universidade: o ensino, a pesquisa e a extensão, o tripé que fez da UFMT uma universidade de qualidade que começamos a construir lá atrás, antes mesmo de 10 de dezembro de 1970. É como sempre afirmo e reafirmo: A UFMT é resultado da contribuição indelével de tantos quantos já participaram ou ainda participam da sua construção. E não apenas desta ou daquela administração superior. A cada tempo o seu próprio tempo, suas oportunidades e seus avanços.

Há muita coisa a fazer e, sobretudo, a se modificar. Isso está claro para mim e para aqueles que me lançaram o desafio de participar mais uma vez deste processo democrático na UFMT. Por isso, e também em virtude da imersão e da análise a que me referi no início desta conversa com vocês, é que me dispus, se assim for o desejo da comunidade universitária, a ser Reitor da UFMT outra vez, para comandar um processo de evolução que hoje é mais que necessário em nossa Universidade, um processo que resgate a autonomia, o convívio democrático e a discussão com vistas à qualidade, discussão da qual, infelizmente, estamos nos afastando a cada dia mais.

Por fim, esclareço que minha candidatura a Reitor é fruto do anseio de uma parcela da comunidade universitária, que entende a necessidade de tornar público que, na UFMT, o pensamento não é hegemônico no que concerne à forma em que deve se dar a gestão das ações no âmbito da instituição e também em relação à sua inserção na sociedade. Por isso mesmo é que, na condição de candidato, peço a necessária reflexão, contribuições e adesão, na forma de voto, à CHAPA 2: A UFMT EM PRIMEIRO LUGAR.

*Fernando Nogueira é professor do Departamento de Engenharia Elétrica, Doutor em Engenharia Elétrica, graduado em Administração e candidato a Reitor da UFMT.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A QUEDA

Maurelio Menezes



Uma cutucadinha para reflexão de quem tem a duvida como alimento diario. A renuncia de Ricardo Teixeira é comemorada por articulistas de esporte e por muita gente como um grande gol da democracia. Para mim, é mais uma piada. Não a queda, mas a comemoração e as afirmações que resultaram dela. Os argumentos para defender essa tese são muitos, simples, e óbvios e, evidentemente, vão provocar a ira dos escudeiros de plantão e daqueles que deixam sua inteligencia ser nublada pela   fumaça da paixão.

Adicionar legenda
Juca Kfouri, por exemplo, sempre muito apaixonado, diz que foi uma vitoria do governo Dilma Roussef. Será? Dias atras, um destes colunistas (se não me falha a memoria foi ele mesmo) publicou que Ricardo Teixeira recorrera a Lula para não cair. O Ministro do Esporte não confirmou nem desmentiu a noticia... Agora com a queda de Teixeira a sub mensagem é a seguinte: Dilma não aceitou o pedido de Lula (sim, porque Lula seria bem capaz de fazer o pedido para pagar o fato de ter garantido a abertura no estadio do Corinthians que nem existia e que ele dera um jeito de "conseguir" financiamento). Em outras palavras, Dilma é uma Presidente independente que, diga-se de passagem, está pronta para um segundo mandato  Nilson Lage, um dos meus professores de Jornalismo há mais de 30 anos disse um dia numa aula: a desconfiança é fundamental. Nunca acreditem em histórias certinhas demais. Pois esta historia esta certinha demais, cheira a armação.

E cheira a armação porque é dificil acreditar na independencia de um governo que faz da administração uma troca de favores e um eterno jogar para baixo do tapete denuncias de corrupção e mau uso do dinheiro publico. Afinal, não joguemos nós para debaixo do tapete que esse é um governo que tem entre seus ministros o consultor das consultorias nunca dadas, Fernando Pimentel. É um governo que tem um Ministro da Pesca, Bispo Crivella, cuja primeira providencia será criar um monte de cargos para alojar seus peixinhos e cuja segunda providencia sera lutar para que o canditado de seu partido em São paulo renuncie para tentar facilitar a vida do candidato do PT lá.

Além de outras barganhas, o atual governo é um governo refém da pior parte do PMDB, aquela mesma que na semana passada mandou um recado para a Presidente, ao derrotá-la no Senado vetando uma indicação dela para a ANTT.  Assim se a queda de Ricardo Teixeira tiver alguma coisa a ver com o Governo Dilma, não foi por interesses democraticos e sim, igualmente, por interesses não confessaveis. Alias, Fernando Sarney é um dos citados para assumir a presidencia com a já informada saida do novo Presidente, José Maria Marin. Com Sarney à frente da CBF e do Comite Local as verbas vão ser liberadas, os gastos realizados, enfim vai sair do jetinho que, como diria um colega de Grupo de pesquisa. "O Capital quer" porque as galinhas estarão aos cuidados das raposas oficiais.

O que estaria prometendeo Havelange ao ex genro?
Sobre a saida de Ricardo Teixeira, ele caiu de maduro. É mais daqueles casos cuja queda tem mulher envolvida. Teixeira começou a cair quando separou-se  filha de João Havelange, seu criador, que jamais o perdoou por isso e o abandonou à própria sorte. E mais... Ricardo Teixeira deve estar rindo de tudo isso, porque com certeza estava achando uma chatice todos os dias ver o nome dele colocado na boca do sapo, muitas vezes por intenções nada confessaveis. Vai controlar seus negocios e gastar seus milhões em Miami, vendo a seleção brasileira perdendo mais uma Copa em casa e rindo muito de tudo daqui... A menos que consigam condena-lo (e a todos os que supostamente são cumplices dele) nos crimes que teria cometido aqui. Pode ser, afinal a Páscoa está chegando e o Coelhinho existe.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O CRONOGRAMA DO DESCASO

Maurelio Menezes

Pinheirinho, a PM do Alckmin
A ação da PM na desocupação de Pinheirinho, em S.José dos Campos, foi criticada, com justiça, violentamente nas midias sociais (e não redes), transformada em TT no Twitter. Foi mais uma prova de que a Policia Militar nao está preparada para intervenções pontuais e acaba agindo sempre na base da pancada e dos varios tipos de bombas intimidadoras que usava nos tempos do regime militar.
Recife, a PM do Eduardo Campos
E isso, ao contrario do que afirmam alguns para tentar tirar proveito político, de olho nas eleições de outubro,  não tem absolutamente nada a ver com o estado onde está o pelotão .  O despreparo da corporação ficou claro essa semana também em Recife onde, teoricamente, a PM é comandada por um governador da base federal, Eduardo Campos, alias, o melhor avaliado do Brasil. Lá estudantes que protestavam contra o aumento do preço da passagem de onibus foi atacada a pancadas, bombas de gas e efeito moral. De acordo com os que afirmaram que a PM que foi violenta em Pinhdirinho é a "PM do Alckmim" no naso de Recife é a "PM do Eduardo Campos", e faz o que ele manda.
É verdade que por tras da ação da policia havia a ação de provocadores ( o que é contestado por muita gente), mas ela deveria estar preparada inclusive para isso. Mas, mais do que isso, há todo um cronograma de descaso dos governos federal, estadual e municipal com os moradores do Pinheirinho. Em oito anos de ocupação, mesmo sabendo como a Justiça age em casos de Direito de Propriedade, nenhuma das tres esferas se posicionou contra a desapropriação nem apresentou alternativas para os moradores. Somente no inicio desse ano, como lembra a Folha de S. Paulo hoje (http://migre.me/7FX9r) quando a desocupação ja havia sido decretada, um  "protocolo de intenções foi assinado pelo prefeito, pelo secretário estadual da Habitação, Silvio Torres, e pela secretária nacional de Habitação, Inês Magalhães. O protocolo foi, no entanto, recusado pela Justiça, por falta de ações concretas."
Aos governos municipal, estadual e federal junte-se alguns movimentos sociais que tiveram tempo para pressionar democraticamente o poder publico para uma solução e aí montar um sistema para que os moradores tivessem lá vida minimamente digna. Pinheirinho se transformou num tipo de favela, que, como toda favela, abrigava desde traficantes e puxadores de carros a gente de bem, trabalhadora, idosos e crianças que jamais tiveram acesso a politicas publicas.
Agora, no bafafá da desocupação, muita gente quer posar de bonzinho para sair bem na foto. E de quebra aproveitar para alfinetar possiveis adversários politicos em outubro. Isso é lamentavel porque fazem politicagem com  tragedia humana. Tragedia que todos esses personagens poderia ter evitado.
A PM  agiu de forma errada (embora amparada pela Justiça que em todos os niveis manteve a desocupação)? Agiu. Mas a ação da PM e da Justiça não seria necessária  se não fosse o descaso do poder publico e dos movimentos sociais que só foram tentar "colocar tramela na porta quando a porta estava arrombada".
Quantos Pinheirinhos existem no Brasil? Quantas vezes e até quando a história vai se repetir?

Ovos para Kassab que nada tinha a ver com o peixe
P.S Quando estava terminando este post, vi as imagens do protesto em São Paulo contra o prefeito Gilberto Kassab. Estranho, muito estranho. As faixas mostravam que o protesto era contra a desocupação de Pinheirinho e contra a ação da policia. Por isso jogaram ovos no prefeito de São Paulo? Mas o que ele tem a ver com S.José dos Campos? E que o ele tem a ver com a PM, que é estadual? É... a campanha de 2012 ja começou. E da pior e mais lamentavel forma possivel... Pior que os partidores que estavam lá e que tentaram impedir o trabalho de jornalistas, pelo que tudo indica, vão ter Kassab no palanque. É que pelo que informa o Augusto Nunes em seu blog ( bit.ly/ybza6U ) o prefeito fechou hoje o aluguel do partido dele para a candidatura de Haddad

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A MORTE DE KIM JONG-IL E O MITO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA

Maurelio Menezes




A morte do ditador norte coreano Kim Jong-Il e a reação a ela merece uma reflexão porque coloca em cheque o conceito de democracia. Pelo menos da democracia como praticada no Brasil.  Como sistema político criado pelos gregos ele era definido como um governo em que o poder era do povo, pelo povo e para o povo" ou seja, nele  o povo definiria o que quer e os governantes o atenderiam. No Brasil, um país que se diz  democrata por excelência, o povo quer saúde e não tem, quer segurança e não tem, quer educação publica e de qualidade e não tem, quer transporte decente e não tem, quer salários decentes e não tem, quer... qualidade de vida e não tem. Em compensação, não quer corrupção e tem de sobra.

As imagens do velório de Jong-Il mostram um sofrimento coletivo do povo norte coreano, um choro coletivo como foi definido pelos veículos ocidentais de comunicação. Para o jornalismo brasileiro, o choro demonstra bem o absoluto controle do Estado sobre a população. Será? Se não for um impossível teatro com milhões de atores, o povo chora pela morte dele porque sofre. E sofre por quê? Evidentemente que não é a troco de nada. Será que o que o povo quer aqui e não tem, eles não têm lá?
Jornais, sites e emissoras de TV daqui são unanimes em afirmar que são “imagens divulgadas pela TV estatal” como quem quer dizer que não são confiáveis. Mas comportamento de TV estatal não é o que mais temos aqui, com o poder publico sustentando a todas e a todos? Porque as de lá são suspeitas e as daqui não? Só as de lá manipulam?

Os jornais de hoje são catastróficos quanto ao futuro: a China teme uma desestabilização do comunismo, povo teme pelo futuro porque filho do ditador, que tem menos de 30 anos, pode colocar tudo a perder. Alias, como alguém pode colocar algo a perder se este algo já não existe, Pelo menos é isso que sempre afirmaram nossos veículos de comunicação, já que sempre pintaram a situação na Coréia do Norte como tétrica, absurda, irrespirável.

Há uma corrente de pensamento que defende a teoria segundo a qual de nada adianta você ter tudo se não tem liberdade. E por acaso no democrático Brasil temos liberdade? Criou-se a ilusão que vivemos numa democracia porque votamos nos governantes que aí estão. Alias liberdade de não votar temos. Mais ainda: os eleitos não cumprem nada dasquilo que levou o eleitor a votar neles e fica por isso mesmo. O atual governo (e os anteriores também) não dá ao povo seus desejos básicos: saúde, educação, transporte, segurança, enfim qualidade de vida, prometido nos palanques. E igualmernte fica por iosso mesmo. Onde está o exercício da democracia no sentido básico pensado pelos gregos?

Democracia aqui é um mito, é um eterno fingir, um faz de conta que só atende ao interesse de grupos social e politicamente hegemônicos, que manipulam e tratam o povo como bibelô, distribuindo a ele cestas básicas e outras empulhações.A decisão do Supremo Tribunal Federal praticamenete acabando com os poderes do Conselho Nacional de Justiça é a prova mais concreta disso. Juizes, desembargadores e ministros que vendem sentenças, que enriquecem bem mais que seus salários permitiriam vão continuar  livres, leves e soltos. 
Qual, enfim, a diferença dessa democracia da tão criticada ditadura sanguinária e manipuladora de Kim Jong-Il na Coréia do Norte?

domingo, 18 de dezembro de 2011

CONTO DE NATAL

Maurelio Menezes



Criação: André Comte-Sponville
- Mamãe! O que é felicidade?

Quando o menino fez a pergunta não fazia idéia que na resposta
estava o segredo da vida... Descalço, sentado no chão de terra batida, brincava, tranqüilo... 


- Vrrruuuummmm, vrum, vruuuuuuuummmmmm!!!!!

A mãe olhou para o filho. O rosto era de quem estava dirigindo um super conversível numa uma pista sem fim. Na mão, um pedregulho que, depois de anos e anos acariciado pela correnteza do rio, tinha um formato que até parecia um carrinho. Parecia...

- Felicidade, filho? Felicidade é... como vou te explicar.... 

- Deve ser muito complicado mesmo, mamãe, porque nunca vi nenhuma gente grande dizendo o que que é. Todo mundo fala o que que é um carro, o que que é uma casa, o que que é uma roupa, o que que é um sapato... vruuummm, vrum, vruuuumm... -e estacionou o carrinho.

- Sabe que é, filho.. A gente grande vive muito preocupada com essas coisas porque elas acabam sendo necessárias na vida. A gente precisa do sapato... precisa da casa...

- ..e não precisa da felicidade, mamãe?

- Precisa, filho... Precisa muito. É que desde muito tempo, quando chega numa fase da vida, nossos sonhos acabam sendo sufocados por essas necessidades... Nossas ilusões ficam esquecidas em alguma esquina da cidade... A gente deixa de olhar para as coisas mais simples da vida.. Só as crianças olham para elas...

- Por quê, mamãe? Gente grande não foi, um dia, gente pequena?

- Foi filho... Mas quando a gente cresce perde , como vou te explicar.... a inocência... 

- Eu sempre achei que ser inocente era uma boa coisa...

- É meu filho... Talvez seja a coisa mais importante da vida... Mas até o significado de inocente os adultos mudaram. Hoje, quando se fala em inocente logo se pensa no oposto, culpado. O sentido de pureza está meio que deixado de lado...

- Você não me disse ainda o que é felicidade. Eu posso dar mais umas voltinhas com meu carrinho antes de ir tomar banho?



Anônimo
- Pode, filho... Felicidade é poder brincar com um carrinho... Com esse carrinho.
felicidade, filho, é olhar pela janela e ver a vida em cada coisa... um passarinho na árvore... alguns peixinhos... duas tartaruguinhas... quatro sapinhos na grama... uma flor... uma criança que passa... um adulto que vai... Felicidade, filho, é a própria vida... é o respeito á vida. Sós as crianças percebem isso...


- Mas a gente não sabe o que é felicidade...

- Não sabe, mas sente, filho... Os adultos sabem, mas não sentem..

- Mas sempre foi assim, mamãe?

- Não filho... Houve uma época em que o homem era feliz. A vida dele se resumia a fazer aquilo que era necessário ser feito para que ele sobrevivesse..

- E porque tudo mudou?

- Ninguém sabe, filho, ninguém sabe...

- Olha, mamãe, uma estrela candente...


- Cadente, filho.. Vamos fazer um desejo.. Uma estrela igual a essa, há muitos anos, se transformou num símbolo de mudança... O homem aprendeu que o amor e o respeito ao próximo eram o caminho da felicidade...

- Parece que não adiantou muito, não é, mamãe? Ele se esqueceu de tudo de novo...

- É verdade, filho... Pior ainda... Se esqueceu e teima em não lembrar...

- Será que tem alguém seguindo a estrela cadente?

Papel de parede
- Tomara que sim... Pode ser alguém que, em vez de presentes, traga outros ensinamentos tão simples... Por exemplo, que todos somos diferentes... E que somente o respeito às diferenças é que vai evitar guerras, que vai aproximar os homens, vai mostrar o quanto é importante a convivência... O quanto é importante se eliminar não as diferenças de pensamento e de idéias, mas as diferenças econômicas e sociais...

- Quem sabe, mamãe, esses Reis ensinem a gente grande a olhar pela janela...

- Seria muito bom, filho, porque dois mil anos depois nós desaprendemos..... não estamos mais olhando pela janela...

- E vai adiantar, mamãe? Se a gente grande já desaprendeu uma vez vai desaprender de novo...

- Pode ser que não filho... Pode ser que daqui a dois mil anos tudo volte a ser como antes, quando o homem só matava os animais que precisava matar para sobreviver... Nunca pescava mais do que precisava... Só arava a terra que precisava arar... Só tirava da terra o que realmente necessitava... O homem lutava, mas não guerreava... Se o homem aprender mesmo a olhar pela janela, filho, vai ver que a vida só tem sentido a partir dessas coisas simples...
- Felicidade é uma coisa simples, mamãe?

- Não, filho, felicidade não é uma coisa simples... As coisas simples é que são a felicidade... Você já fez o seu pedido para a estrela?

Foto: Antonio da Silva Couto
- Já, mamãe... Eu quero que você, o papai, a vovó, o vovô, o titio, a titia, minha maninha e todo mundo nunca deixem de olhar pela janela e ver essas coisas simples. Eu quero que o mundo seja feliz, mamãe...

- Vai ser filho... Vai ser -disse a mãe olhando para a estrela cadente e para o filho que brincava com seu conversível último tipo numa pista sem fim.

sábado, 5 de novembro de 2011

SEO DOTÔ UMA ESMOLA PRA UM HOMEM QUE É SÃO...

Maurelio Menezes

Quando Luiz Gonzaga e Zé Dantas compuseram "Vozes da Seca" na década de 40 do século passado com certeza não imaginavam que a letra seria tão usada para se referir não só à ajuda dada pelos sulistas aos nordestinos na época da seca (que mais parecia uma esmola, porque os sulistas jamais se preocuparam em resolver o problema definitivamente), mas também a tantas outras situações muito parecidas.
Uma delas, agora na segunda década do seculo XXI:  a decisão de se reservar metade das vagas da UFMT para negros e brancos oriundos de escolas públicas. O problema central está, só não enxerga quem é cego ou finge não enxergar, na pessima qualidade do ensino publico que, feitas as devidas e honrosas exceções, não forma ninguem. Num passado relativamente recente quem estudava em escola pública entrava direto nas universidades de excelencia. Eu, como tantos de minha geração,  estudei num Grupo Escolar e numa Colégio Municipal e num Instituto Estadual de uma pequena cidade do interior paulista, Dracena. E sem cursinho entrei num curso que à epoca era muito concorrido na USP, o de Letras. Era uma aluno muito acima da média? Jamais o fui. Apenas tive minha formação em escolas públicas de qualidade. A partir dos anos 70, ainda no regime militar , com o movimento de entregar a educação para a iniciativa privada, o ensino publico começou a ser jogado às traças. E nenhum governo evitou essa deterioração. O de Lula com o FIES acabou de selar o "investimento" no ensino privado em detrimento do público. Há decadas o poder público não investe nem no aluno nem no professor. Tem razão a professora Amanda Gurgel ao afirmar que a educação há muitos anos não é prioridade nem dos governos municipal, nem dos estaduais e muito menos dos federais.
Hoje não se faz nada para se restabelecer um ensino de qualidade como ja tivemos no passado , mas se alimenta debates como o de cotas que nada mais são que as esmolas  poetadas por Gonzagão e Zé Dantas e cantadas por Gonzagão e tantos outros. Com esse debate pobre de conteudo, que só objetiva se desviar o foco, o governo e seus asseclas (aqueles que repetem tais quais papagaios o discurso do poder central) posam de progressistas,  incluidores, concretizadores do reparo de injustiças cometidas ao longo do tempo contra as "classes menos favorecidas".
Somente teremos um país menos injusto quando as injustiças forem corrigidas na raiz e de uma vez por todas. Nada contra politicas afirmativas, mas elas somente têm razão de ser se vierem acompanhadas de medidas que solucionem o problema na base e não sejam assumidas como um discurso demagógico.
Os governos do estado, responsável pelo ensino médio (que é um dos piores do país) e municipais (que não estão muito á frente) agradecem. Afinal a decisão, não da UFMT, mas de um grupo que reza a cartilha da administração superior (feitas as devidas e honrosas exceções) os desobriga de investir para se ter um ensino publico de qualidade. Pelo menos nos dez proximos anos que é o prazo estipulado para essa enganação.
Lamentável! E o que que mais me espanta é que cabeças aparentemente lúcidas comemoram essa aberração como se fosse a solução, a panacéia para todos os males. Não são. São apenas esmolas dadas a homens que são sãos e que, ou ficarão viciados com ela ou morrerão de vergonha. Lamentável mesmo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

EFEITO COLATERAL

Maurelio Menezes

Pela segunda vez, uma decisão autocrática da Administração Superior da Universidade Federal de Mato Grosso –UFMT- provocará um resultado altamente prejudicial aos estudantes de Mato Grosso e derrubará por terra o princípio e os estudos que há décadas norteiam a criação de universidades públicas.

Este princípio, criado a partir de estudos de especialistas de diversas áreas, define que uma universidade, para ser criada, precisa contemplar as necessidades, principalmente sociais e econômicas, da região onde esta universidade está sendo criada. Isso pressupõe que os profissionais formados por esta universidade vão trabalhar nesta região para desenvolvê-la, diminuir suas carências e principalmente suas injustiças sociais.

Ao determinar que o SISU seria a única forma de ingresso na UFMT (sim, porque o que houve foi uma determinação da Reitora para atender o desejo político partidário do governo federal), a Administração Superior abriu espaço para alunos de outras regiões estudarem aqui. Pode-se afirmar que essa é idéia da universalização democrática do acesso á universidade que, teoricamente, está no centro do SISU. Discurso puro. E pior, altamente prejudicial aos cofres públicos.

Uma simples avaliação de como estão os cursos hoje e se encontrará um quadro muito diferente do que havia antes. Nos chamados cursos de ponta, entre eles Medicina e Direito, alunos entrando seis meses depois de as aulas terem iniciado. No curso de Direito por exemplo, há casos de alunos que se matricularam no ano passado e nunca assistiram aula. Nos demais cursos, pelas informações que tenho, uma evasão muito maior que nos anos anteriores. É o caso da Pedagogia onde, de acordo com uma colega que também participou aqui em Natal do 34º Congresso da Associação Nacional de Pesquisadores em Educação, cerca de metade dos matriculados não irão concluir o curso.

Na segunda decisão sem consulta à comunidade acadêmica, a da cota para alunos oriundos de escolas públicas, mais uma vez os estudantes de Mato Grosso serão prejudicados. E o pior que, como não houve debate sobre o tema nem para se descobrir formas de resolver o problema na raiz, esses alunos foram manipulados com os velhos chavões como “pai de aluno de escola pública não pode pagar cursinho”, “qualidade do ensino público é muito ruim”, “escola publica não tem laboratório” e outras falácias do gênero. Qual o resultado disso tudo? Como o ensino médio tem uma qualidade bemmelhor que a de Mato Grosso nos grandes centros, e ai me refiro principalmente a São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, alunos das escola publicas destas cidades, prestarão o SISU lá e virão para cá, alguns para fazerem matricula e nunca mais voltar e outros até para cursar, mas ao se formar arrumam as malas e voltarão para suas regiões.

Estes são apenas alguns dos efeitos colaterais destas decisões absolutamente antidemocráticas e pouco inteligentes, de acordo com o pensamento do Professor Doutor Eymard Mourão Vasconcellos, do GT Educação Popular do 34º Congresso da Associação Nacional dos Pesquisadores em Educação do qual participei aqui em Natal. Num minicurso ministrado por ele e outros três pesquisadores, Eymard comentou que tem uma divida de gratidão impagável àqueles que pensam de forma diferente dele, porque essas pessoas, sejam elas quem forem, o fazem pensar, avaliar posições e correr um risco muito menor de errar.

Pois é... Muita gente da UFMT deveria ter feito esse mini curso. Com certeza os efeitos colaterais não seriam tão desastrosos quanto estes.