quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O PAPO HOJE NA FOLHA DO ESTADO É SOBRE O PAPA E O MARXISMO

Maurelio Menezes

Desde que assumiu o pontificado o Papa Francisco vem externando posições claras em defesa da mudança do sistema econômico de forma a torná-lo mais desigual. Faz isso não apenas nas palavras mas nun documento que recemente lançou como lpider maior da Igreja Católica. Isso levou alguns conservadores americanos a taxá-lo de "marxista", como se isso fosse uma ofensa ou o diminuisse. A resposta veio  calmamanente numa entrevista a um dos principais jornalis italianos, tema do assunto do artigo publicado nesta quinta-feira, dia 19, na Folha do Estado de Mato Grosso. Voce tem acesso a ele na versão impressa do jornal, ou aqui no meu blog.


O Papa Francisco e o Marxismo



O Papa Francisco respondeu no domingo numa entrevista exclusiva ao jornal La Stampa, de forma educada, aos conservadores americanos que o “acusaram” de ser marxista. De acordo com ele, literalmente, “A teoria marxista está equivocada, mas ao longo da vida conheci muitos marxistas que eram boas pessoas, logo não me sinto ofendido em ser chamado de marxista”.

As “acusações” surgiram quando Sua Santidade em seus pronunciamentos começou a criticar não o capitalismo, mas a forma como ele está funcionando hoje no mundo, a fome que ele faz aumentar, as desigualdades que ele provoca, a distancia entre os que têm muito e os que nada têm que só faz aumentar. Quando esteve no Brasil, o Papa foi claro: “os políticos deveriam ouvir as vozes das ruas”.

Posteriormente, numa analise da economia mundial, Francisco chamou atenção para o fato de o capitalismo estar se transformando numa nova tirania, no que também foi criticado. Ao La Stampa, o Papa disse que estava apenas apresentando um olhar sobre o que está acontecendo no mundo com a solidificação de uma economia de exclusão e desigualdade.

A posição do Papa lembra uma afirmação na década de setenta do Cardeal brasileiro Dom Helder Câmara. Quando foi questionado sobre suas posições políticas disse algo como “Quando dou comida e moradia (foi ele quem construiu, no Leblon, a Cruzada, para os desabrigados da Favela do Pinto, que fora incendiada) para os pobres dizem que eu sou um santo padre. Mas quando pergunto por que essas pessoas são pobres me taxam de comunista”.

Durante os protestos no Brasil, diversos analistas afirmaram que as manifestações não eram especificamente contra o capitalismo, embora em alguns cartazes e palavras de ordem estivessem estampados os protestos contra ele. As manifestações sempre foram contra o funcionamento do sistema, que privilegia uns em detrimento de outros.

Antes das manifestações, numa Seminário Temático, aqui em Cuiabá, o italiano Geovanni Semeraro, professor da Universidade Federal Fluminense, afirmou que em nenhum dos países que ele conhecia (e ele conhece muitos) o capitalismo foi tão perverso quanto no Brasil.

Referindo-se às manifestações brasileiras, em entrevista a O Globo, o francês Pierre Levy afirmou que surgiu uma nova consciência entre os brasileiros e que os resultados não seriam imediatos. E porque alertas como os do Papa não podem despertar esse tipo de consciência também?

Há algumas suspeitas em relação às ações do Papa. A verdade é que na Europa, ao mesmo tempo em que o capital ganhou força, Deus foi aos poucos morrendo. Hoje, as igrejas são muito mais templos de visitação e admiração por turistas, que lugares para reflexão. Já na América Latina, o catolicismo perdeu espaço na mesma proporção que cresceu a pobreza. Desta forma, O Papa estaria atirando no que realmente existe, mas para recuperar o terreno perdido para a teologia da prosperidade.

O que parece fora de qualquer principio de bom senso é que cento e vinte anos após a morte de Marx ainda haja quem pense que o mundo se divide em marxistas e não marxistas. A questão é bem outra: é a falta de interesse dos políticos em investir. O governo federal comemora recorde de arrecadação, quando deveria comemorar recorde de investimento em setores essenciais. Mas o que se vê é o contrário: por ser impedido pela justiça de aumentar o IPTU em São Paulo o prefeito Fernando Haddad decidiu cortar investimento na Educação, logo ele que foi Ministro da Educação. E no Orçamento Federal, o governo cortou 3 bilhões do PAC, um programa criado para diminuir a falta de saneamento básico no pais. O problema não é ser ou não marxista. Ser ou não capitalista. O problema é querer que a miséria permaneça. Por muito tempo. Infelizmente. Esse é o monstro que os Movimentos Sociais têm obrigação de combater.

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

UM OLHAR SOBRE AS REVOLUÇÕES DE MANDELA

Maurelio Menezes

Já está na Folha Digital (http://www.folhadoestado.com.br/manutencao/) o artigo desta quinta no qual falo um paralelo entre as estratégias revolucionarias apresentadas por Antônio Gramsci, a Guerra de Posição e a Guerra de Movimento, e a atuação de Nelsona Mandela na luta que levou ao fim do absurdo regime do Apartheid na África do Sul...Voce pode analisa-lo na edição impressa desta quinta na Folha do Estado - MT ou aqui no Blog.


MANDELA, O HOMEM DAS DUAS GUERRAS GRAMSCIANAS...

 
Antonio Gramsci definiu dois tipos diferentes de estratégias revolucionárias para se chegar ao poder: a guerra de movimento e a guerra de posição. Traduzindo de uma forma bem simples, a primeira é aquela em que o enfrentamento é necessário. E a segunda é aquela em que vai se conquistando espaço, posições para futuramente se conseguir mudar o poder hegemônico. Para Gramsci a guerra de movimento era algo próprio de países do Oriente. Já no Ocidente a única possível seria a de posição, ou seja, a conquista de espaços. Para o pensador italiano, quem faz a revolução tem que analisar muito bem qual estratégia adotar, pois se não o fizer, certamente estará fadado a perder.

Na semana passada foi realizada na UFMT o Seminário Temático “Os Movimentos Sociais em Diálogo com a Educação”. Na participação da representante do MST em uma das mesas de debate, ficou claro que os Sem Terra, no Brasil, usam as duas estratégias. Quando partem para o confronto com invasões, ou “trancam” rodovias país afora estão numa guerra de movimento, muitas vezes condenada, como previra Gramsci. Ela foi questionada se não era um contra senso, ao mesmo tempo que agiam desta forma e tinham um modelo próprio de educação, no qual o militante se torna sujeito social na luta, eles disputam vagas nas universidades tradicionais. Lucinéia Freitas disse que não havia contra senso porque, ao mesmo tempo em que o MST  julga necessário o confronto para atingir seus objetivos, sabe que é necessário se conquistar espaços para, aos poucos, fazer sua defesa e até divulgar suas ações. De acordo com ela, o que a mídia mostra em relação ao MST é sempre o que eles classificam de negativo, como as invasões e as interrupções das estradas. Mas nunca mostram o sistema de educação, as “cirandas” e outras ações que também compreendem a luta do movimento.

Analisando a vida e a luta de Mandela, pode-se concluir que também ele aplicou os dois tipos de guerra identificados por Antônio Gramsci. Em 1952, quando Mandela já era personagem central na historia da luta contra o Apartheid, criado oficialmente três anos antes, ele deu Início a uma guerra de movimento sem precedentes na história do país. Criou a “Campanha do Desafio” com um dia de protesto em que os negros foram convocados a usarem os espaços reservados exclusivamente aos brancos. No ano seguinte, em Sophiatown, fez um discurso forte em que afirmou que “os tempos da resistência passiva haviam passado”.

Menos de dez anos depois, já haviam criado o MK, braço armado do Congresso Nacional Africano -CNA-. Foi a fase mais violenta da luta contra o regime do Apartheid. No livro “Nelson Mandela, conversas que tive comigo”, lançado há três anos no Brasil pela Editora Rocco, ele afirma que “Nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições.”

Depois de 27 anos de prisão, periodo durante o qual se recusou diversas vezes a negociar com os segregacionistas, Mandela tentava convencer o Presidente Botha a anunciar o fim do Apartheid e afirmava que ele é quem deveria renunciar a violência. Quando Bhota foi atingido por uma doença séria, Frederick de Clerk assumiu o poder e Mandela viu nele as condições para uma negociação como haviam tentado décadas antes. Aí ele retomou a  guerra de posição que acabaria com Apartheid e que devolveria a África do Sul aos sulafricanos de uma vez por todas.

No domingo o corpo dele será enterrado. Mas o que a mídia tem dito nos ultimos dias a seu respeito é apenas parte da história. Há mais, muito mais, inclusive de negativo, mas um negativo que não chega a manchar o que ele foi: a mais completa tradução da luta pela liberdade do poder opressor.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

MANIFESTAÇÕES ATINGEM UCRANIA E TAILANDIA... ESTE É NOSSO PAPO HOJE NA FOLHA DO ESTADO

Maurelio Menezes
Ucrania e Tailandia estão no centro de meu artigo publicado hoje na Folha do Estado -MT. Por motivos diferentes, milhares de manifestantes tem saido às ruas lutando por aquilo em que acreditam.  É mais uma demonstração que a Primavera Árabe foi apenas o estopim, nçao apenas para o Norte da África e Oriente Médio, mas para todo o mundo.  Vove pode ler o artigo na página 4 da  Folha , http://www.folhadoestado.com.br/manutencao/  ou abaixo:



TAILANDIA E UCRANIA, AS BOLAS DA VEZ...
Por motivos diferentes, ucranianos e tailandeses foram às ruas nas ultimas semanas e enfrentaram a violência policial. Evidentemente que há interesses políticos por trás dos protestos em um e em outro país. Mas em ambos os casos o que interessa é a decisão da população de contestar medidas contrarias a seu interesse, algo como mudar as regras com o jogo em andamento.

No caso da Ucrânia, o motivo da revolta foi a desistência do Presidente Viktor Yanukovich em assinar um acordo que permitiria ao país entrar na União Europeia. A assinatura seria no ultimo dia 21, mas na véspera Yanukovich anunciou o recuo, provocado pela pressão do presidente russo Vladimir Putin. O Primeiro Ministro ucraniano, Mykola Azarov, reconheceu que houve a pressão e embora tenha afirmado que não houve condição alguma imposta, fala-se que Moscou ameaçou cortar o fornecimento de gás russo à Ucrânia e a proibição de entrada de produtos ucranianos em território russo.

À frente das manifestações estão, mais uma vez, jovens que se comunicam e se convocam pela internet. Os partidos de oposição assumiram a luta iniciadas por estudantes como Alexandra Prissiajniouk, de 19 anos,  que numa das manifestações afirmou que na eleição a postura do presidente era outra e que a população estava ali para dizer que se sentiam europeus.

No domingo os ânimos se acirraram, houve confrontos e os manifestantes tomaram o prédio da prefeitura de Kiev, onde montaram o que chamam Quartel da Resistência. Para o Presidente russo, o que está havendo é que querem derrubar um governo legitimamente eleito. Mas a cada dia parece ficar mais claro que ser legitimamente eleito não basta para a população. Lá, como cá, queremos mais. Muito mais que isso. Ou como diz a canção: “A gente não quer só comida/ a gente quer comida / diversão e arte/ A gente não quer só comida a gente quer saída / pra qualquer parte /A gente não quer só comida a gente quer bebida / diversão, balé / A gente não quer só comida / a gente quer a vida como a vida quer”

Na Tailândia, o foco é a corrupção. Os manifestantes, entre eles muitos ligados a partidos de oposição, acusam a Primeira Ministra Yingluck Shinawatra, eleita há dois anos, de usar a maioria parlamentar que possui para criar leis que levem à anistia do irmão dela, Thaksin Shinawatra, também legitimamente eleito, mas acusado de corrupção, derrubado por um golpe há sete anos e exilado do país. Para os lideres da oposição Thaksin continua a governar o país, inclusive distribuindo dinheiro a parlamentares para que eles aprovem as medidas de seu interesse.

Analisando politicamente, há uma diferença muito grande entre os dois casos, especialmente porque a Tailândia é um país onde golpes de estado são quase corriqueiros: nos últimos 80 anos houve 18 deles, ou seja uma média de um a cada seis anos. Já na Ucrânia, apesar de negociações estarem em andamento há seis anos, o presidente afirma que as regras são muito duras e iriam prejudicar as camadas mais pobres da população. O que pode parecer estranho é que só agora com a pressão de Putin, ele tenha percebido isso.

O que parece estar claro é que a Primavera Árabe, o primeiro movimento social no qual a internet teve participação fundamental,  mais que mudanças no Oriente Médio e Norte da África, serviu como um estopim para uma situação que analistas identificam em todos os lugares: as mudanças são necessárias e precisam ser realizadas urgentemente. Ninguém está feliz com o que recebe e muito menos com o que vê acontecer no centro do poder.

E ao pensar em mudanças, me veio à cabeça um post de minha amiga dos tempos de TV Bandeirantes, Luciana Savaget, dia desses no Facebook, citando Fernando Teixeira de Andrade: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

 

domingo, 1 de dezembro de 2013

PAGANDO UMA DÍVIDA: MEU ARTIGO NA FOLHA DO ESTADO DE QUINTA FEIRA PASSADA

Maurelio Menezes

Como viajei meio às pessas no final de semana, acabei não publicando aqui no Blog meu artigo veiculado na Folha do Estado de Mato Grosso. Desta vez o paapo foi sobre o olhar do pensador espanhol Manuel Castelles sobre os movimentos de rua no Brasil... Agora pago esta dívida:



O OLHAR DE MANUEL CASTELLS SOBRE O BRASIL DAS RUAS

 

Em maio, quando as manifestações de ruas começaram a ganhar corpo no Brasil, Manuel Castells, considerado o principal pensador da atualidade  sobre a sociedade em rede e os movimentos sociais que dela nascem, veio ao Brasil para preparar o lançamento de seu novo livro Network of Outrage and Hope, que traduzido no Brasil seria lançado na Bienal do Livro no Rio, no final de agosto, inicio de setembro pela Zahar Editores, com o  titulo  Redes de Indignação e Esperança – Os Movimentos Sociais na Era da Internet. No livro ele fazia uma análise de movimentos sociais recentes, como a Primavera Árabe, a revolta dos Indignados na Espanha e o Occupy nos Estados Unidos.

Nos vinte dias que passou aqui entre debates e entrevistas, as manifestações cresceram tanto que ele e os editores brasileiros decidiram acrescentar um Posfácio com analise dos protestos no Brasil e antecipar o lançamento do livro para julho, para que ele chegasse às livrarias ainda no calor do grito nas ruas.

Neste Posfácio Castells começa escrevendo “Aconteceu também no Brasil e sem que ninguém esperasse”, E termina afirmando que “Pois o que é irreversível no Brasil como no mundo é o empoderamento dos cidadãos, sua autonomia comunicativa e a consciência dos jovens que tudo o que sabemos do futuro é que eles o farão. Mobilizados.”

Castells bate na tecla de que a alegria de o Brasil sediar mais uma vez uma Copa do Mundo transformou-se “num negócio mafioso de corrupção em grande escala da qual participam empresas de construção, federações nacionais e internacionais e administrações publicas de diversos níveis [...]”.

Para o sociólogo espanhol, que é professor em duas universidades americanas, o grito que ganhou as ruas saiu das entranhas de um país onde há anos adotou-se um modelo de vida que ignora as dimensões humanas e ecológicas do desenvolvimento. Esse modelo, de acordo com ele, que é “centrado no crescimento a qualquer custo”, não assume a nova cultura de dignidade e de vida que não seja baseada no consumo desenfreado.

Ele não passa ao largo da educação, também, e repete uma das lutas dos professores de instituições publicas de ensino superior ao realizarem a maior greve da historia, que parou as universidades por 127 dias: esse modelo não entende que a “escolarização sem uma verdadeira melhoria do ensino não é educação, mas armazenamento de crianças [...]”.

Para Castells, as manifestações que começaram na Tunísia e se estenderam por diversos países, derrubando governos ou fazendo com que eles se mexessem, é um mundo que a “gerontocracia dominante não entende, não conhece e que não lhe interessa [..]” mas que a apavora quando vê seus filhos se comunicando via internet, tomando posições e deixando claro que o poder está saindo do controle deles e migrando para  a juventude.

Quando escreveu o Posfácio, em julho passado, Castells identificou como o mais significativo nas manifestações brasileiras as reações das instituições políticas (e consequentemente daqueles que as defendem ou vivem delas), que classificaram os protestos como demagógicos, golpistas e irresponsáveis. Verdade, mas essas classificações não foram apenas dos empoderados do momento. A oposição torcia quieta para que tudo acabasse logo, porque também ela defende esse modelo, um modelo que não coloca o ser humano como centro das ações a não ser quando se torna necessário usá-los para se atingir algum objetivo político eleitoreiro.  

Castells quando escreveu o Posfácio deixou claro ser uma questão em aberto se as manifestações levariam a uma interação real entre a política das ruas e a política das instituições.

A impressão que se tem hoje, quase cinco meses depois, é que os políticos continuam a agir como se não precisassem prestar contas a ninguém, como alguém que “vê os votos como se fossem seus, seus cargos públicos como direito próprio e suas decisões como indiscutíveis. [...} A democracia foi reduzida a um mercado de votos em eleições realizadas de tempos em tempos, mercado dominado pelo dinheiro, pelo clientelismo e pela manipulação midiática”

 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O PAPO HOJE NA FOLHA DO ESTADO É SOBRE O MENSALÃO

Maurelio Menezes

O artigo assinado por mim e publicado hoje na Folha do Estado de Mato Grosso,  tem como centro o julgamento do mensalão, as reações apaixaonadas de ambos os lados e sua relação com os Movimentos Sociais, visto por alguns analistas internacionais...



E POR FALAR EM MENSALÃO...


Não existe nada mais velho no Brasil que esse termo, “mensalão” que, salvo raríssimas exceções, é distribuído nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas, na Câmara Federal e no Senado. Mas é engraçado que o corretor do Word não o reconhece, como se ele não existisse nem no vocabulário nem na prática.  

Durante os protestos de maio e junho no Brasil, havia muitos gritos nas ruas. Analistas internacionais foram unanimes à época: os protestos não eram contra este ou aquele partido, contra este ou aquele governo. Não eram nem mesmo contra o capitalismo, embora em muitos cartazes se liam palavras de ordem contra ele. Os protestos eram contra o sistema, como ele está funcionando. E estava (e continua) funcionando mal, muito mal.

No Brasil as análises vieram acompanhadas das paixões políticas partidárias que sempre atrapalham a lucidez do pensar. E agora não está sendo diferente. Quando Lula nomeou Joaquim Barbosa como Ministro do Supremo Tribunal Federal quis, de acordo com alguns analistas, fazer marketing: seria o primeiro Presidente da República a nomear um Ministro negro para a mais alta corte jurídica do país. Agora as mesmas pessoas que enalteceram o fato e afirmaram coisa do tipo “só mesmo um Presidente que veio do povo faria isso” estão tentando crucificar o Ministro que, de eleitor de Lula, acabou se transformando em seu algoz. E nas mídias sociais não raro as agressões a ele são racistas, extremamente violentas e de mau gosto.

Nas manifestações brasileiras um dos gritos das ruas era exatamente a prisão dos mensaleiros. Elas estão sendo realizadas agora, mas falta muita gente, como falta, também, a investigação do mensalão mineiro. Com o inicio do cumprimento das penas dos condenados por acusações pelas quais não têm mais direito a recurso, a voz das ruas finalmente está sendo ouvida? Há quem diga que não. Essa seria apenas mais uma forma de o governo ter a seu favor a implacabilidade no julgamento de quem foge às regras da ética, mesmo que tenha que se cortar na própria carne, para usar uma frase do senso comum.

Outros gritos ouvidos nas ruas estão sendo ouvidos, embora tardiamente. As votações secretas no Congresso vão acabar, mas apenas parcialmente. Há muita coisa a mudar. Paulo Gerbaudo, professor de sociologia do King`s College de Londres, se referindo as manifestações no Brasil, comentou que o protesto que começou com a questão da tarifa de ônibus, acabou se transformando num grande movimento contra a truculência policial, a ineficácia do estado, o autoritarismo, a falta de liberdades e, principalmente, a corrupção. Para ele, esses movimentos promovem uma mudança que é cultural. O próximo passo será saber se as organizações sociais e políticas terão condições de construir um trabalho que eleve às mudanças pedidas nas ruas: mudanças políticas, sociais e econômicas. Mas mudanças de fato.

Para o espanhol Manuel Castells, os movimentos de maio e junho deixaram claro que a maioria dos cidadãos não se sente representado pelas instituições tal como elas estão organizadas hoje. Por isso ele conclui que na era da informação os sujeitos realmente capazes de produzir a transformação da sociedade são os movimentos sociais.

Hoje muita gente brinca nas mídias sociais afirmando que o gigante acordou deu uma espreguiçada e voltou a dormir. Mas para que a tese de Castells se concretizasse seria necessário que os manifestantes rompessem com os códigos do poder dominante e criassem redes alternativas que tivessem por base uma identidade coletiva de resistência. Mas será que estamos preparados para isso? Ou nossas paixões partidárias continuarão a falar mais alto como parece estar acontecendo agora com a prisão dos mensaleiros?

P.S. Dia desses conversando com uma espécie de consultora para quem sempre leio meu texto antes de enviá-lo para a redação, ela comentou que eu estava entrando muito na política e fugindo um pouco da educação. Ai me lembrei mais uma vez de Gramsci, para quem educação e política se misturavam como se fossem uma única coisa, ou seja, para ele, para a política é educativa e a educação é politizante, no sentido mais amplo que se possa conceber política.

 

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O PAPO HOJE NA FOLHA DO ESTADO É UMA REFLEXAO SOBRE O BRASIL DE HOJE DE ACORDO COM LEONARDO BOFF

Maurelio Menezes


Na semana passada durante um encontro com ativostas de movoimentos sociais Leonardo Boff  se abriu de forma muito interessante. Mostrou que não gosta de reduzir o debate à politica, pois é preciso muito mais que isso para a transformação da sociedade... Foi um papo muito interessante e depois ele se colocou à disposição para responder a perguntas. Não foi poupado e ai mostrou mais uma vez porque é uma das grandes cabeças desse país, e que vale a pena se lido e ouvido.  Algumas das  reflexões dele estão abaixo e na Folha do Estado desta sexta feira.... Confira aqui ou lá.


REFLEXÕES DE LEONARDO BOFF SOBRE O BRASIL DE HOJE

Na semana passada Frei Leonardo Boff esteve dois dias em Cuiabá. No primeiro, fez uma palestra a convite de uma empresa e no segundo fez o que mais lhe interessava: se reuniu com ativistas dos mais diversos Movimentos Sociais. Falou durante cerca de 40 minutos e depois abriu para perguntas em que respondeu a questionamentos sobre política, economia, copa do mundo e educação.
Sobre política fez criticas a seu amigo, Lula, “de quem privo, além, da amizade, os bastidores de sua vida” , que era a esperança de mudança dos rumos da nação, mas antes mesmo de ser eleito com a “malfadada Carta aos Brasileiros” rendeu-se ao neo liberalismo e acabou fazendo o que seus antecessores fizeram: acordo com o que há de pior na política brasileira. Citou especificamente a visita de Lula e Haddad à mansão de Maluf com quem fez um toma lá dá cá, "para ganhar um minuto e meioa a mais na televisão". De acordo com ele, Lula disse “Nem me fale foi a maior cag.... da minha vida”. Disse também que se Marina sair candidata e se conseguir se eleger vai matar a causa ecológica... Sobre a Copa disse que não há mais o que se fazer, pois ela está ai. O que é preciso é se fiscalizar e exigir que ela deixe de fato um legado para a sociedade. Para Leonardo Boff, os governos Lula e Dilma são governos de transição para  chegarmos ao governo do bem estar social que todos (ou pelo menos a maioria) almejamos.
Fez uma critica também a Chavez sobre quem disse que o único mérito que ele teve foi o de enfrentar o Império que compra da Venezuela 25 por cento do petróleo que importa, o que significa que também à Venezuela não interessa um rompimento total pelos milhões de dólares que deixaria de receber.
Num determinado ponto da fala dele, citou Paulo Freire, para quem “a escola não tem capacidade de mudar o mundo, mas tem condições de mudar o homem, que transformará o mundo”. Paulo Freire talvez tenha sido o grande pedagogo da história do Brasil, mas sua Pedagogia Critica nunca foi usada como deveria nas escolas, tanto que ao morrer, em 1997, havia mais livros dele publicados no exterior que no Brasil. O pensamento de Freire sobre educação, foi construído particularmente a partir do pensamento de Gramsci, que também dava à escola um papel fundamental na transformação da sociedade, via transformação do homem.
Aproveitei o assunto abordado aqui na semana passada e perguntei a Leonardo Boff como transformar o homem se o governo, comprometido com o neo liberalismo, determina a política didático pedagógica e, portanto, nossa escola é planejada para manter as coisas como estão, ou seja, sem proporcionar a ninguém  a possibilidade de transformação de nada. Para ele, nossas universidades, a começar pelas Pontifícias Universidades Católicas, são chocadeiras do sistema. Nossos jovens saem da universidade prontos para atender ao mercado. É assim há 500 anos, embora a primeira universidade brasileira, USP, só tenha sido criada na década de 30 do século passado.
Leonard Boff acredita que essas mudanças são difíceis e precisam de tempo. De acordo com ele, se se fez menos do que se esperava, não há como negar que se fez o que era possível. Ele lembrou que o governo que está hoje no poder nasceu de um movimento social que depois se articulou como movimento político e conquistou a vitória. Assim, a articulação dos movimentos sociais é fundamental para criar no cidadão o espírito critico que ele precisa ter para a transformação duradoura que queremos. As manifestações de  maio e junho deixaram claro que a população está cansada de uma política de negociatas, de toma lá dá cá. O que a sociedade quer, hoje, são serviços que funcionem, é uma educação que tenha a qualidade mínima, o que não existe hoje, é uma saúde para todos.
Pode-se não concordar com muito do que ele disse nesse encontro com ativistas dos movimentos sociais. Mas não há como negar. Aí estão pontos que obrigatoriamente têm que ser levados em consideração como reflexão sobre os caminhos que precisamos trilhar para fazermos de nossa sociedade pelo menos uma sociedade menos injusta.
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

NOSSO PAPO HOJE NA FOLHA DO ESTADO - MT É SOBRE EDUCAÇÃO E ESTADO

Maurelio Menezes


No artigo de hoje na Folha do Estado de MT, trato de um tema que vem sendo debatido ha décadas: o Estado e a Educação transformadora... Defendo a tese que ao Estado não interessa a formação de um cidadão crítico, não porque assim fica mais fácil manipulá-lo, mas porque ao governo nao interessa mudar o poder hegemonico. Assim, o planejamento escolar é feito para provocar mudanças que nçao mudam nada. Se você nçao o ler na Folha do Estado, pode fazê-lo aqui.


O PODER HEGEMÔNICO, UM ENTRAVE PARA UMA EDUCAÇÃO TRANSFORMADORA

Todo mundo já ouviu, mais de uma vez, inclusive, que a escola tem o poder de transformar a realidade. Já ouviu, também, que ao governo, seja qual for ele, não interessa educar, pois é melhor manter a população como ela está, acrítica, porque assim fica mais fácil manipular o cidadão/eleitor. Esse é um debate bem mais antigo do que parece.

Moisey Pistrak foi um educador socialista que viveu na Rússia, posteriormente União Soviética, nação que nasceu após a revolução de 1917. Ele também defendeu essa ideia em seu principal livro, “Fundamentos da Escola do Trabalho”, lançado em 1924. Para ele o trabalho era o principal ponto de reflexão que vincularia a escola à comunidade. Aí estaria, portanto, o caminho para uma transformação social de fato, já que com essa vinculação seria possível ligar a vida do estudante ao processo de transformação social, o que levaria à construção de uma nova sociedade. Pistrak dirigiu o que seria o modelo da escola socialista, a Lepechinsky, que pretendia levar para o processo didático pedagógico os ideais, concepções e valores do processo revolucionário inicial da União Soviética.

Aí entramos num debate que parece não ter fim: o Estado e a Educação. Quando Pistrak produziu essa experiência, estava representando o Estado. Na ação dele não havia muita diferença com as ações desenvolvidas no Brasil e em outras partes do mundo. Afinal, a produção do conhecimento que possibilita a autodeterminação do povo sempre esteve restrita ao que se convencionou chamar de “elite dominante”.

Apesar do discurso presente em todos os governos, o Estado não age de forma neutra e sequer representa a vontade da sociedade. Ele é o planejador do sistema de ensino e, como tal, planeja para atender aos interesses do grupo que detém o poder hegemônico, ou seja, da mesma forma que age quando cria leis. Aliás, provavelmente daí tenha surgido a brincadeira segundo a qual a justiça é cega, mas é mais cega para uns que para outros.
 
Na época de Pistrak, e de Gramsci que foi seu contemporâneo, os Movimentos Sociais consistiam basicamente nos movimentos operários e partidários e que hoje como afirmou Ilse Scherer-Warren numa palestra aqui em Cuiabá em 2002 são estruturados como “uma rede que conecta sujeitos e organizações de movimentos,  contemplando diversidades culturais e identidades diversas, buscando o reconhecimento social na esfera pública”. Em outras palavras cabe a esses novos movimentos sociais buscarem a transformação que a sociedade exige e que é, sem sombra de dúvidas, a única forma de se criar algo novo em relação a essa mesmice que vimos tendo nos últimos doze governos. Provavelmente o último que tenha tentado fazer alguma coisa no sentido de dar uma formação diferenciada ao estudante tenha sido o de João Goulart, com a experiência da escola em tempo integral criada por Anizio Teixeira e que depois foi adaptada por Leonel Brizola no Rio, mas que acabou perdendo a razão de ser porque tinha mais o objetivo de propaganda política que de real interesse em estabelecer um tipo de educação transformadora. Todos os demais fizeram progressos, uns mais outros menos, mas não tocaram no essencial: a mudança do planejamento escolar que continua a ser estruturado de forma a promover mudanças que não mudam nada. Pelo contrário, mantém o poder hegemônico como ele foi construído há séculos.

As manifestações de maio e junho, que chamo de “Outono/Inverno Brasileiro” numa analogia com a Primavera Árabe, não deve e não pode se resumir ao que foi. Na terça feira, as manifestações voltaram. Convocadas pelo grupo Anonymous, houve protestos em três capitais brasileiras e em diversas partes do mundo como Europa, África, Ásia e Oriente Médio. A rede, que usa as mídias sociais para se comunicar, estabeleceu o cinco de novembro como sendo o Dia Mundial da Resistência e Rebelião Popular.

Coincidentemente, pelo que se tem notícia, o único país onde aconteceram manifestações em que houve confronto com a policia foi o Brasil, mais precisamente em São Paulo (aqui houve manifestações também em Porto Alegre e no Rio). Há poucos dias, numa reunião com o Ministro da Justiça, ficou combinado que as PMs de todos os Estados adotariam o mesmo modus operandi em caso de protestos. Pelo que parece, o combinado não durou uma semana. E ai fica mais uma vez a pergunta: a quem interessa a criminalização dos movimentos sociais? Ou ainda: quem tem medo dos Movimentos Sociais?