quinta-feira, 26 de junho de 2014

SÁBADO PRÓXIMO, UM DIA PRA NÃO SE ESQUECER

Maurelio Menezes

Não... O título deste artigo não é uma referência à participação da Seleção Brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo num jogo contra o Chile, que pode esconder uma desagradável surpresa para todos nós. O que não se pode esquecer é que num dia 28 de abril, há exatos cem anos, começou o que viria ser chamada de Primeira Grande Guerra Mundial, que matou alguns milhões de pessoas e que teve, nas entrelinhas, várias razões inconfessáveis para que ela estourasse.

O motivo oficial (sempre há um prá tudo) foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria, o Arquiduque Francisco Ferdinando, em Saravejo, capital da Bósnia. O assassino era ligado ao grupo Mão Negra, da Sérvia, e por isso a Áustria declarou guerra à Sérvia. A Rússia ficou do lado da Sérvia e o resultado foi a declaração de guerra pela Alemanha contra a Rússia. E aí houve um efeito dominó.

O verdadeiro motivo, entretanto, foi outro. Nos anos anteriores, especialmente a partir de 1870, o mundo vivia uma euforia que ficou conhecida como Belle Époque, com um grande avanço no campo econômico e tecnológico. E os países ricos tinham certeza que se imporiam aos países pobres. Em outras palavras, havia no ar um desejo de imperialismo tomando conta do campo político. E havia.também, um claro sentimento que uma guerra seria inevitável para que as pretensões dos países ricos fossem alcançadas. Por isso França e Inglaterra assinaram um acordo que ficou conhecido como Entente Cordiale (Entendimento Cordial) com um protegendo o outro em caso de agressão. A Rússia aderiu e o acordo passou a ser chamado de Tríplice Entente. Do outro lado estava a Tríplice Aliança, formada por Alemanha, Itália (que demoraram muito a se unificar, a Alemanha no final do Séc. XIX e a Itália no inicio do Séc. XX) e Império Austro Húngaro.

África e a Ásia haviam sido divididas por França e Inglaterra que viam nos dois continentes importantes pontos para se produzir ou simplesmente recolher as matérias primas que suas indústrias necessitavam.

Aí surgiu uma clara Torre de Babel. A Alemanha, invadiu a África do Sul, que pertencia ao Império Britânico. Como conseqüência, a Nova Zelândia invadiu Samoa que era apoiada pela Alemanha. O Japão, que nesta Guerra apoiava a Inglaterra, atacou portos chineses que abasteciam a Alemanha de carvão. Resultado: em pouco tempo todos os postos alemães no Pacífico estavam sob controle da Tríplice Entente.

A Primeira Guerra ficou conhecida também pela tecnologia de morte que criou. Foi nela que surgiram os tanques de guerra (1916, inventado pelos britânicos), gás venenoso usado pela primeira vez pelos alemães em 1915 na invasão da Bélgica. Os submarinos também foram utilizados como arma e guerra pela primeira vez pelos alemães, em 1915. No ano anterior, os aviões já estavam sendo utilizados para matar.

Os equipamentos de proteção eram pouco eficazes e isso levou a um avanço da medicina especialmente no que diz respeito a enxertos porque os soldados voltavam para casa mutilados. Com os homens na linha de frente, as mulheres foram para o mercado de trabalho, como motoristas, entregadoras de carvão ou operárias em fábricas, especialmente as de munição.

Os Estados Unidos somente entraram na guerra em 1917 e foram fundamentais para o final do conflito. O que levou os americanos a entrarem foi a saída da Rússia.  O motivo foi a vitoria dos Bolcheviques na Revolução Russa, que derrubou o regime dos Czares. E como os EUA tinham acordos milionários especialmente com Inglaterra e França, não havia outra saída. Aos poucos, os aliados dos alemães foram abandonando a guerra deixando o país sozinho e envolvido por uma série de conflitos internos. No dia 9 de novembro de 1918 o Imperador alemão Guilherme II foi derrubado e substituído por um governo provisório que assinou o tratado de paz, acabando o conflito.

Sábado, dia 28 terão se passado 100 anos do conflito que matou mais de 10 milhões de pessoas, deixou milhões inúteis para sempre, destroçou centenas de milhares de famílias, e com seus antecedentes com certeza mudou para pior o rumo que o mundo poderia ter tomado.

Sábado no Brasil, não vai se falar em outra coisa. Não sobre a guerra, mas sobre Brasil X Chile pelas Oitavas de Final da Copa do Mundo. Sobre a Primeira Guerra a mídia vai dedicar alguns segundos. Afinal, pra que dar ao brasileiro pão e conhecimento na forma de uma análise profunda do conflito se o circo está aí para ele se divertir à vontade?  

terça-feira, 8 de abril de 2014

A CUIABA DE ONTEM E DE HOJE

Maurelio Menezes

Hoje na Folha do Estao de Mato Grosso, tanto na Edição Impressa quanto na Diigital meu olhar sobre os 295 anos de Cuiabá, uma menina que está sendo muito maltratada exatemente por quem deveria enchê-la de cainho.



ERA UMA VEZ...    UMA MENINA

Quando ela nasceu, era um daqueles bebês apaixonantes que só nascem um em vários séculos. À sua volta os rios e riachos corriam fazendo aquele barulho gostoso que faz bem aos ouvidos e à alma. As flores e as árvores pareciam guardar seus passos. No solo a imensidão do verde. No céu a imensidão do azul. O destino dela estava traçado. Seria, em poucos anos, a mais atrativa do país. O ano era 1719 e logo a fama da riqueza daquela menina correu léguas e mais léguas. Em pouco tempo nela havia 30 mil pessoas, aventureiros em busca de parte de suas riquezas... A corrida ao encontro dela foi tão grande que decidiram que ela seria a capital de São Paulo. Nada mais justo, porque àquela altura, 1723, ela já era a cidade mais populosa do país.
Depois, como chegaram eles se foram... Restavam poucos E os contatos com a capital, que voltara a ser São Paulo, era feito via bandeirantes desbravadores. Eles saiam navegando pelo Tietê, aquele mesmo que alguns séculos depois foi transformado pelo homem num grande esgoto, viravam à esquerda no rio Paraná, entravam pelo rio Paraguai, navegavam até o encontro de suas águas com as do Cuiabá e vinham até o Porto, atracando às  margens da Prainha, um córrego lindo, cuja nascente alguns quilômetros acima ela bonita de se ver. No Porto ficavam as embarcações maiores e nas menores eles traziam até o encontro da Rua de Cima com a Rua de Baixo e a Rua do Meio, víveres, que trocavam por ouro e pedras preciosas...
Os anos se passaram... As margens da Prainha jovens mancebos com seus corpos queimados passavam o tempo envolvidos na pesca, especialmente do pintado, que abundava no córrego, que tinha em alguns lugares águas profundas. “Era ali –lembrou certa vez a professora Dunga Rodrigues- que as jovens da sociedade iam passear.” O passeio, é claro era uma desculpa.  Do outro lado do córrego, as lavadeiras, que tudo sabiam, que tudo falavam...
Eram tempos em que após as grandes chuvas, a criançada saia catando ouro nas ruas. E sempre achavam. Eram tempos de “cajiú”, de pixé, de cururu e siriri. Mas a modernidade acabou com isso. O Córrego da Prainha ganhou primeiro, paredes, depois foi coberto, escondido, porque era vergonhoso ver no que ele se transformara: um grande esgoto, um Tietê em miniatura.
295 anos depois, é triste, muito triste, lembrar como a história conta como foi essa menina, uma menina, com um coração sem tamanho, capaz de receber nele de forma aberta todos que até ela chegam. E chegam pelos mais diversos motivos. Chegam porque anteveem uma nova oportunidade. Chegam porque são obrigados por transferências compulsórias, chegam para “assuntar” o ambiente. Chegam por chegam. Chegam porque onde estavam se tornara impossível de viver. Chegam e ficam, a maioria. Chegam e vão embora, a minoria.
Hoje, aquela menina que nasceu em 1719, não está mais rodeada de verde. Seus rios e riachos foram transformados em esgotos ou quase esgotos. Muitos sumiram, deixaram de ser perenes porque suas nascentes foram assassinadas pela ação destruidora do homem. Os serviços que a cada ano tornaram-se mais necessários porque a menina cresceu, melhoraram muito, mas só na propaganda. Na realidade estão a cada dia piores.
Não existe um sistema de saúde digno para aqueles que vivem com a menininha de 295 anos. Não existe uma educação que privilegie o crescimento do ser humano como Ser Humano. Transporte nem se fala. Não existe estrutura para nada. Um chuvisco de cinco minutos e tudo está alagado. Com certeza, ao nascer, aquela menina não imaginava que um dia passaria por isso. Nem ela, nem ninguém.
De qualquer forma, menina, parabéns pelos seus 295 anos. Que cada um de nós façamos uma autocrítica sobre o que, feitas as devidas e honrosas exceções, estamos fazendo com você, que se abriu para nós e tem recebido em troca, em vez de flores e afagos, apenas o abandono.
 
 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

NA FOLHA DO ESTADO HOJE UMA REFLEXÃO SOBRE A MORTE DE SANTIAGO ANDRADE

Maurelio Menezes


SOMOS TODOS SANTIAGO

Nenhum protesto existe sem causa. Esta pode ser até manipuladora, mas existe. Podemos até ser contra esta ou aquela manifestação, mas é importante que num momento lamentável, trágico mesmo, como este da morte do repórter cinematográfico da Band Rio, Santiago Andrade, reflitamos sobre o rumo que nosso país está tomando, não pelas manifestações que estão sendo realizadas, mas pela inoperância do poder hegemônico que de esperança se transformou em decepção.
Santiago morreu numa fatalidade porque ninguém apontou o tal rojão especificamente para ele. Colocaram fogo e jogaram no chão.  Aliás, de acordo com um colega, ele esta indo embora, fazendo mais dois “takes” para fechar a reportagem. Santiago morreu como ao longo da historia morreram muitos trabalhadores simplesmente porque eram trabalhadores e estavam, honestamente, desenvolvendo sua função.

Nossa polícia é violenta por natureza. E o é em todos os estados e cidades, porque ainda é treinada com as técnicas e táticas dos tempos de ditadura. Dia desses, numa briga de torcidas do Corinthians, mesmo com um torcedor caído um PM continuou a dar “cassetetada” nele. Não seria o caso de parar, afinal, ele estava dominado? Não, porque ódio está no sangue, no DNA de nossa polícia... No Brasil não existe black bocks, e já escrevi sobre isso aqui neste espaço. Os manifestantes cobrem o rosto para não serem identificados por essa polícia que inclusive se infiltra e muitas vezes solta ela mesmo os rojões para desacreditar este ou aquele movimento social...

Há pelo menos cinquenta anos, somos dirigidos por uma sequencia de governos neoliberais (mesmo levando-se em conta que durante o regime militar não existia o neoliberalismo, criado a partir do Consenso de Washington), que privilegiam o consumo e usam o consumo como se isso fosse uma conquista social. É o que Guy Débord chamara de Sociedade do Espetáculo onde não importa o que você é e sim o que você aparenta ser.

Se, por um lado, o consumo dá ao adolescente e mesmo ao adulto uma sensação de inclusão, o consumo só faz aumentar a diferença entre a ponta e a base da pirâmide social. O neoliberalismo, que todos esses governos assumiram como cartilha é a pior faceta do capitalismo exatamente por isso. E em países que tem sistemas eleitorais ultrapassados como o nosso, a coisa é pior ainda. De uma só vez aumenta as diferenças na pirâmide social, leva à escolha de um Congresso, Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores que não representam o cidadão, também porque os parlamentares ficam isolados em seus escritórios, fazendo tudo, menos o que o interessa a este cidadão.

Em momentos como esse é comum aparecerem pessoas questionando nas mídias sociais “É assim que queremos mudar o país?” A transformação de um país é muito mais complexa do que se pensa e do que afirmam discursos superficiais, quase sempre conservadores. Também como já escrevi neste espaço, Gramsci, há quase cem anos afirmou que a única forma de transformar a sociedade é por meio da elevação cultural das massas. E a escola teria papel fundamental nisso. Não essa escola que ai está (e a de hoje no Brasil não é muito diferente da que ele conheceu na Itália). Gramsci falava numa escola onde poderiam estudar os filhos dos ricos e dos pobres (dos burgueses e dos trabalhadores, como ele, nessa época socialista, afirmava) A escola não transforma o mundo, mas transforma o homem, que tem o poder de transformar o mundo, já dizia Paulo Freire.

Santiago morreu como morrem todos os dias crianças e adultos pelo descaso com a Saúde... Santiago morreu como o país está morrendo pelo desrespeito à Educação e a quem deveria transformar o país. Santiago morreu como todos os dias morrem um pouco os trabalhadores ao usar esse transporte coletivo obsoleto, destruído, que tira horas diárias da vida deles porque o poder público prefere atender a reivindicações dos empresários e joga a policia para responder às reivindicações dos trabalhadores.

 Da mesma forma que somos todos Amarildo, o trabalhador que sumiu na Rocinha, no Rio de Janeiro e para cujo caso até hoje o poder público não apresentou uma solução, hoje somos todos Santiago...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A INTERNET COMO FERRAMENTA DE MANIPULAÇÃO PELO PODER HEGEMONICO

Maurelio Menezes

Hoje, na edição escrita da Folha do Estado, nosso papo é sobre u uso da Internet para manipular o que tem sido feito por muita gente. Um instrumento que gerou movimentos iportantes como a Primavera Árabe, os Occupys e as manifestações de maio junho no Brasil é utilizado pelo poder hegemonico de plantão para desviar a atenção de problemas graves qaue estão transformando o Brasil num pais cada vez mais subalterno.. Lamentavel. Vc pode ler também na pagina quatro da Edição Digital
do jornal.

 
 


INTERNET: TRANSFORMAR, NÃO MANIPULAR

Quando Gabriela Possolli Vesce afirmou que a internet “Trata-se da mídia mais descentralizada existente atualmente, e justamente por esse motivo passa a ser também a mídia mais ameaçadora para os grupos hegemônicos, tanto política como economicamente. As pessoas podem dizer o que quiserem por meio da internet, conversar com quem desejarem, oferecer serviços que considerarem convenientes. Disso resulta um grande gama de tentativas para controlar a internet, seja de forma clara ou sutil.”, falava com conhecimento de causa que deve ter todo pesquisador.
E esta semana estamos tendo mais uma demonstração disso. Defensores do poder político hegemônico de plantão estão se deleitando com um embate entre e empresária Luisa Trajano e dois participantes do Manhattan Connection, Caio Blinder e Diogo Mainardi, no qual a empresária dona da rede Magazine Luiza, afirma, com razão, que pela primeira vez em 14 anos a inadimplência caiu no Brasil.
De acordo com o Serasa Experian, ela caiu dois por cento, depois de ter aumentado quinze por cento no passado. Os números neste momento são o de menos, inclusive porque há muito a ser analisado... Por exemplo, um dos fatores que pesaram foi a queda de cheques sem fundos. Mas quem usa cheque hoje? Ou com que frequência se usa cheques?
Mas como escrevi acima, para o que se pretende analisar aqui, estes números e conjeturas não importam muito. O que importa é que paralelamente há outro número que, ao contrario da queda na inadimplência, prejudica o poder hegemônico de plantão: a geração de empregos no país foi a pior nos últimos dez anos, exatamente o período em que o Partidos dos Trabalhadores está no poder.   
Ao fazerem estardalhaço com um numero tentam, na verdade, esconder o outro. E ai, para completar, vem o Ministro do Trabalho, Manoel Dias, e afirma que a baixa geração de emprego no Brasil é um milagre se comparado com o resto do mundo, que vive uma grande crise. O Ministro se esqueceu, propositadamente, acredito, que também sobre esse tema o que importa é a qualidade do emprego gerado e não a quantidade, até porque num pais imaginário onde todos estão empregados, não há aumento algum na geração de emprego.
O que se torna necessário no caso dos dois números que estão circulando na mídia é a capacidade de pagamento por parte do cidadão e a qualidade do emprego gerado, ou seja, qualidade de vida. Para isso é necessário uma política de médio ou longo prazo, ou uma ruptura com o sistema que ai está e que as manifestações de maio/junho já deixaram claro que não está agradando à maioria. Isto significa investimento maciço em educação e saúde, principalmente. Mas não nessa educação que aí está, justiça seja feita, há mais de 500 anos.
A criação de políticas pedagógicas que beneficiam apenas parcela da população cria situações como os rolezinhos e a insegurança (no momento que escrevo está havendo um tiroteio –mais um- em São Luis, Maranhão, onde de manhã foi anunciada mais uma morte no Presídio de Pedrinhas, a terceira só em janeiro numa media de uma morte por semana). E o uso da internet como veículo de manipulação e não de transformação deixará tudo como está, o que, é bom não esquecer, interessa a muita gente, especialmente aos que fazem parte do sistema hoje.
Como há muito conteúdo na internet, a tendência é se dedicar pouco tempo à análise da confiabilidade desses conteúdos. Um bom começo para se filtrar estas informações é se ponderar sobre a confiabilidade do veiculo, quem está escrevendo, sob que ponto de vista o faz e a que interesses defende.
É mais ou menos como sempre lembra aos alunos da Pós Graduação em Educação da UFMT o professor Passos: “Um pesquisador deve sempre pensar antes de qualquer coisa porque esta pesquisando e especialmente para quem está pesquisando”.
 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

HIGIENIZAÇAO... VOCÊ ALGUM DIA CONCORDOU COM ISSO?

Maurelio Menezes


Hoje na Folha do Estado, nosso papo é sobre higienização, o movimento que o poder hegemônico faz para se ivrar daqueles que possam prejudicar seus interesses ou se interpor em seu caminho. O assunto é polêmico, e não é novo. E está presente aqui, ali e acolá.

HIGIENIZAÇÃO, UMA VERGONHA A CAMINHO!

Maranhão. Matança atrás de matança, presos degolados, fuzilados, presídios superlotados. A situação em Pedrinhas lembra uma das cenas iniciais do filme “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”, na qual o personagem de Seo Jorge, no presídio Bangu Um do Rio de Janeiro, faz um acerto de contas com uma facção rival. Sangue jorrando por todos os cantos.

Campinas. Ônibus incendiados. Doze pessoas assassinadas. As primeiras investigações dão conta que há participação da Polícia na chacina. Seria uma vingança pela morte de um policial que reagiu a um assalto no domingo.

São Paulo. Um dos principais shoppings da cidade decide, mesmo desrespeitando a Constituição Federal, decide proibir a entrada de adolescentes desacompanhados e aciona a polícia para impedir os famosos “rolezinhos”. Mas nem todos os jovens são impedidos, de acordo com adolescentes que organizam o rolezinho, ou seja, depende da cor da pele, da aparência, da roupa que usam.

O sociólogo Rudá Ricci vê no rolezinho um movimento social nascente, uma espécie de “Ocuppy da periferia”. Para ele é crueldade compará-los com arrastões. Ativistas de Direitos Humanos e de outros Movimentos Sociais transformaram o rolezinho numa causa. E ninguém deve ficar assustado se nas próximas manifestações de rua haja palavras de ordem a favor do rolezinho.

Cuiabá. Aqui não há, pelo menos que se saiba, envolvimento da policia. A Prefeitura Municipal está começando a desenvolver um programa social que tem o objetivo oficial de dar uma nova oportunidade aos moradores em situação de rua. Numa entrevista ao “Bom Dia Mato Grosso”, dia desses, uma servidora envolvida no programa, afirmou que o grande problema é que alguns desses indivíduos não querem voltar para casa.

Ao se ouvir uma afirmação assim não tem como se fugir de algumas perguntas: qual o motivo de somente 13 meses após a posse a administração municipal estar dando inicio a esse programa? Será que o programa tem relação com o fato de estarmos a cinco meses da Copa quando turistas de pelo menos oito países virão para cá? Será que os Movimentos Sociais que trabalham com essas pessoas foram ouvidos? Ou os Grupos de Pesquisa da UFMT que igualmente têm dezenas de pesquisa sobre o assunto foram ouvidos? Estes grupos, um deles coordenado pelo Professor Doutor Luis Augusto Passos, com certeza têm respostas, inclusive o porque de muitas pessoas em situação de rua não desejarem voltar para casa.

Quando houve a primeira visita de um Papa ao Brasil, os caminhos por onde ele iria passar foram devidamente higienizados pela administração pública. Até um mega outdoor para esconder uma favela em Copacabana foi colocado. E a favela escolhida para sua visita, o Vidigal era urbanizada e ficava (como ainda fica) na frente de um dos principais hotéis da Cidade Maravilhosa, o Sheraton.

No filme “Para sempre Cinderela” a personagem de Drew Barrymore (Danielle de Barbarac), numa das cenas, fazendo se passar por uma baronesa, intercede por um preso e diz para o Príncipe algo como “O que está acontecendo aqui é uma injustiça. Vocês os educam para a pobreza, para a corrupção e quando crescem e roubam uma galinha, vocês o prendem, o julgam de acordo com seus interesses, os condenam e os matam ou os mandam para as Américas”.

Apenas para constar, a história contada no filme teria inspirado o conto de fadas “Cinderela”, Essa versão tem uma narradora, a suposta tataraneta de Danielle, a rainha da França que, desgostosa com a forma como fora contada a vida da “Gata Borralheira”, chama os irmãos Grimm ao Palácio e conta a eles o que realmente acontecera na França do Século XVI.

Ficção ou não, há ai uma verdade: há séculos utiliza-se, de uma forma ou outra, artifícios para a higienização, ou gentrificação, da sociedade. O que se faz hoje não tem muita diferença do que fez Hitler que, ao eliminar judeus, usava o argumento de purificar a sociedade.  E a quem interessa isso? Ou ainda, porque se insiste nisso?

 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O PAPO HOJE NA FOLHA DO ESTADO É SOBRE O PAPA E O MARXISMO

Maurelio Menezes

Desde que assumiu o pontificado o Papa Francisco vem externando posições claras em defesa da mudança do sistema econômico de forma a torná-lo mais desigual. Faz isso não apenas nas palavras mas nun documento que recemente lançou como lpider maior da Igreja Católica. Isso levou alguns conservadores americanos a taxá-lo de "marxista", como se isso fosse uma ofensa ou o diminuisse. A resposta veio  calmamanente numa entrevista a um dos principais jornalis italianos, tema do assunto do artigo publicado nesta quinta-feira, dia 19, na Folha do Estado de Mato Grosso. Voce tem acesso a ele na versão impressa do jornal, ou aqui no meu blog.


O Papa Francisco e o Marxismo



O Papa Francisco respondeu no domingo numa entrevista exclusiva ao jornal La Stampa, de forma educada, aos conservadores americanos que o “acusaram” de ser marxista. De acordo com ele, literalmente, “A teoria marxista está equivocada, mas ao longo da vida conheci muitos marxistas que eram boas pessoas, logo não me sinto ofendido em ser chamado de marxista”.

As “acusações” surgiram quando Sua Santidade em seus pronunciamentos começou a criticar não o capitalismo, mas a forma como ele está funcionando hoje no mundo, a fome que ele faz aumentar, as desigualdades que ele provoca, a distancia entre os que têm muito e os que nada têm que só faz aumentar. Quando esteve no Brasil, o Papa foi claro: “os políticos deveriam ouvir as vozes das ruas”.

Posteriormente, numa analise da economia mundial, Francisco chamou atenção para o fato de o capitalismo estar se transformando numa nova tirania, no que também foi criticado. Ao La Stampa, o Papa disse que estava apenas apresentando um olhar sobre o que está acontecendo no mundo com a solidificação de uma economia de exclusão e desigualdade.

A posição do Papa lembra uma afirmação na década de setenta do Cardeal brasileiro Dom Helder Câmara. Quando foi questionado sobre suas posições políticas disse algo como “Quando dou comida e moradia (foi ele quem construiu, no Leblon, a Cruzada, para os desabrigados da Favela do Pinto, que fora incendiada) para os pobres dizem que eu sou um santo padre. Mas quando pergunto por que essas pessoas são pobres me taxam de comunista”.

Durante os protestos no Brasil, diversos analistas afirmaram que as manifestações não eram especificamente contra o capitalismo, embora em alguns cartazes e palavras de ordem estivessem estampados os protestos contra ele. As manifestações sempre foram contra o funcionamento do sistema, que privilegia uns em detrimento de outros.

Antes das manifestações, numa Seminário Temático, aqui em Cuiabá, o italiano Geovanni Semeraro, professor da Universidade Federal Fluminense, afirmou que em nenhum dos países que ele conhecia (e ele conhece muitos) o capitalismo foi tão perverso quanto no Brasil.

Referindo-se às manifestações brasileiras, em entrevista a O Globo, o francês Pierre Levy afirmou que surgiu uma nova consciência entre os brasileiros e que os resultados não seriam imediatos. E porque alertas como os do Papa não podem despertar esse tipo de consciência também?

Há algumas suspeitas em relação às ações do Papa. A verdade é que na Europa, ao mesmo tempo em que o capital ganhou força, Deus foi aos poucos morrendo. Hoje, as igrejas são muito mais templos de visitação e admiração por turistas, que lugares para reflexão. Já na América Latina, o catolicismo perdeu espaço na mesma proporção que cresceu a pobreza. Desta forma, O Papa estaria atirando no que realmente existe, mas para recuperar o terreno perdido para a teologia da prosperidade.

O que parece fora de qualquer principio de bom senso é que cento e vinte anos após a morte de Marx ainda haja quem pense que o mundo se divide em marxistas e não marxistas. A questão é bem outra: é a falta de interesse dos políticos em investir. O governo federal comemora recorde de arrecadação, quando deveria comemorar recorde de investimento em setores essenciais. Mas o que se vê é o contrário: por ser impedido pela justiça de aumentar o IPTU em São Paulo o prefeito Fernando Haddad decidiu cortar investimento na Educação, logo ele que foi Ministro da Educação. E no Orçamento Federal, o governo cortou 3 bilhões do PAC, um programa criado para diminuir a falta de saneamento básico no pais. O problema não é ser ou não marxista. Ser ou não capitalista. O problema é querer que a miséria permaneça. Por muito tempo. Infelizmente. Esse é o monstro que os Movimentos Sociais têm obrigação de combater.

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

UM OLHAR SOBRE AS REVOLUÇÕES DE MANDELA

Maurelio Menezes

Já está na Folha Digital (http://www.folhadoestado.com.br/manutencao/) o artigo desta quinta no qual falo um paralelo entre as estratégias revolucionarias apresentadas por Antônio Gramsci, a Guerra de Posição e a Guerra de Movimento, e a atuação de Nelsona Mandela na luta que levou ao fim do absurdo regime do Apartheid na África do Sul...Voce pode analisa-lo na edição impressa desta quinta na Folha do Estado - MT ou aqui no Blog.


MANDELA, O HOMEM DAS DUAS GUERRAS GRAMSCIANAS...

 
Antonio Gramsci definiu dois tipos diferentes de estratégias revolucionárias para se chegar ao poder: a guerra de movimento e a guerra de posição. Traduzindo de uma forma bem simples, a primeira é aquela em que o enfrentamento é necessário. E a segunda é aquela em que vai se conquistando espaço, posições para futuramente se conseguir mudar o poder hegemônico. Para Gramsci a guerra de movimento era algo próprio de países do Oriente. Já no Ocidente a única possível seria a de posição, ou seja, a conquista de espaços. Para o pensador italiano, quem faz a revolução tem que analisar muito bem qual estratégia adotar, pois se não o fizer, certamente estará fadado a perder.

Na semana passada foi realizada na UFMT o Seminário Temático “Os Movimentos Sociais em Diálogo com a Educação”. Na participação da representante do MST em uma das mesas de debate, ficou claro que os Sem Terra, no Brasil, usam as duas estratégias. Quando partem para o confronto com invasões, ou “trancam” rodovias país afora estão numa guerra de movimento, muitas vezes condenada, como previra Gramsci. Ela foi questionada se não era um contra senso, ao mesmo tempo que agiam desta forma e tinham um modelo próprio de educação, no qual o militante se torna sujeito social na luta, eles disputam vagas nas universidades tradicionais. Lucinéia Freitas disse que não havia contra senso porque, ao mesmo tempo em que o MST  julga necessário o confronto para atingir seus objetivos, sabe que é necessário se conquistar espaços para, aos poucos, fazer sua defesa e até divulgar suas ações. De acordo com ela, o que a mídia mostra em relação ao MST é sempre o que eles classificam de negativo, como as invasões e as interrupções das estradas. Mas nunca mostram o sistema de educação, as “cirandas” e outras ações que também compreendem a luta do movimento.

Analisando a vida e a luta de Mandela, pode-se concluir que também ele aplicou os dois tipos de guerra identificados por Antônio Gramsci. Em 1952, quando Mandela já era personagem central na historia da luta contra o Apartheid, criado oficialmente três anos antes, ele deu Início a uma guerra de movimento sem precedentes na história do país. Criou a “Campanha do Desafio” com um dia de protesto em que os negros foram convocados a usarem os espaços reservados exclusivamente aos brancos. No ano seguinte, em Sophiatown, fez um discurso forte em que afirmou que “os tempos da resistência passiva haviam passado”.

Menos de dez anos depois, já haviam criado o MK, braço armado do Congresso Nacional Africano -CNA-. Foi a fase mais violenta da luta contra o regime do Apartheid. No livro “Nelson Mandela, conversas que tive comigo”, lançado há três anos no Brasil pela Editora Rocco, ele afirma que “Nós adotamos a atitude de não violência só até o ponto em que as condições o permitiram. Quando as condições foram contrárias, abandonamos imediatamente a não violência e usamos os métodos ditados pelas condições.”

Depois de 27 anos de prisão, periodo durante o qual se recusou diversas vezes a negociar com os segregacionistas, Mandela tentava convencer o Presidente Botha a anunciar o fim do Apartheid e afirmava que ele é quem deveria renunciar a violência. Quando Bhota foi atingido por uma doença séria, Frederick de Clerk assumiu o poder e Mandela viu nele as condições para uma negociação como haviam tentado décadas antes. Aí ele retomou a  guerra de posição que acabaria com Apartheid e que devolveria a África do Sul aos sulafricanos de uma vez por todas.

No domingo o corpo dele será enterrado. Mas o que a mídia tem dito nos ultimos dias a seu respeito é apenas parte da história. Há mais, muito mais, inclusive de negativo, mas um negativo que não chega a manchar o que ele foi: a mais completa tradução da luta pela liberdade do poder opressor.